Buscando cenários de qualidade para as revistas de educação no Brasil

• Antonio Carlos Rodrigues De Amorim.
SECCIÓN: DOSSIER
• Pós-doutorado – Goldsmiths College, University of London. Professor da Universidade Estadual de Campinas. acamorim@unicamp.br


 

Resumen

 En este ensayo, problematizaremos algunos dilemas y desafíos para las revistas científicas brasileñas en el campo de la educación, así como las soluciones encontradas, con respecto a los criterios de calidad. Tomando como ejemplo una muestra de revistas de mayor impacto en el campo académico de la educación, teniendo en cuenta la diversidad histórica y editorial, se discutirán los modos de producción y las características de calidad que están siendo gestadas a partir de los siguientes parámetros: los cruces y tensiones entre internacionalización versus el impacto local; la responsabilidad social versus la circulación del conocimiento en la comunidad académica; la política editorial selectiva versus la visibilidad y la cantidad de la producción en el campo académico, entre otros. La intención es proponer un mapeo, aunque incipiente, acerca de lo que mueve y hace que las revistas académicas en la educación sean un problema que debe ser pensado prospectivamente. Más que encontrar respuestas cerradas o propuestas estándar, este mapeo proporcionará preguntas con el fin de generar un escenario de caminos posibles para el campo.

 

Palabras clave: Periódicos Científicos, Calidad, Evaluación.

 

Abstract

In this essay, there will be problematized some dilemmas and challenges faced by Brazilian academic journal of Education field, as well as the solutions they are founding, in relation to quality criteria. Working with a sample of journals of higher impact into the field, with variety historical and editorial, it will be discussed the modes of production and the characteristics of the quality. The description parameters are the tensions and crossings between internationalisation versus local impact; social responsibility versus knowledge spreading in academic community; selective editorial policy versus visibility and quantity of intellectual production, and so on. The aim is to propose a mapping, even if incipient, for the conditions that turn the academic journals in Education a problem that must be thought forward. More than find closed answers or standardized proposals, the mapping will give questions to generate a scenario of possible paths for the area.

 

Keywords: Academic Journals, Quality, Evaluation.

 

Resumo

Neste ensaio, serão problematizados alguns dilemas e desafíos enfrentados por revistas brasileiras da área de educação, bem como as soluções encontradas, com relação aos criterios de qualidade. Tomando como exemplo uma amostra de revistas de maior impacto na área, com diversidade editorial e histórica, serão discutidos os modos de produção e as características da qualidade, que vêm sendo gestados por atravessamentos e tensões entre internacionalização versus impacto local; responsabilidade social versus circulação do conhecimento na comunidade acadêmica; política editorial seletiva versus visibilidade e quantidade de produção da área, dentre outros. A intenção é propor um mapeamento, mesmo que incipiente, do que movimenta e torna as revistas acadêmicas em educação um problema a ser pensado prospectivamente. Mais do que encontrar respostas fechadas ou propostas padronizadas, tal mapeamento fornecerá questões para gerarmos um cenário de possiveis caminos para a área.

 

Keywords: Revistas Científicas, Qualidade, Avaliação.

 

Primeiras palavras

Neste ensaio, serão problematizados alguns dilemas e desafios enfrentados por revistas brasileiras da área de educação, bem como as soluções encontradas, com relação aos critérios de qualidade.

O conjunto de revistas que nos auxiliará a pensar foi organizado tendo como base a sua inserção na Biblioteca SciELO. Essa escolha respaldou-se no fato de que os critérios SciELO exercem, nos últimos anos, influência significativa tanto na discussão quanto na proposição de alternativas do ‘modelo’ que vem se instituindo sobre qualidade da produção científica.

De acordo com Packer et al ii (2014), o SciELO é um programa especial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) que proporciona apoio político e financeiro para o desenvolvimento da coleção do SciELO Brasil, interoperando com outras coleções nacionais e temáticas do SciELO, além de garantir a manutenção contínua da plataforma metodológica e tecnológica. O SciELO Brasil também atua como o secretariado técnico da rede. Cada uma das coleções nacionais do SciELO são gerenciadas e financiadas pelas respectivas instituições de pesquisa nacionais e todas adotam a mesma metodologia e tecnologia operacional.

Dentro das possibilidades contidas no SciELO, fizeram-se os seguintes cortes: comporem o grupo das 10 mais acessadas da área de educação ou terem uma política editorial explícita que visa à internacionalização, ampliar impacto na área via política editorial singular ou, no âmbito da discussão sobre a produção científica vinculada à pós-graduação brasileira, por em questão a responsabilidade social.

Dos seis convites feitos às revistas, quatro responderam positivamente. São essas, portanto, que participaram desta primeira sondagem.

Entrou-se em contato com os editores-chefes das revistas, explicando a finalidade desta aproximação inicial com os “cenários de qualidade”, as questões que interessavam pensar e o porquê da escolha. As respostas obtidas por quatro editores foram variadas. Dois deles indicaram a leitura de editoriais ou de apresentação de dossiês temáticos em números das revistas já publicados e que traduziriam posicionamento do comitê editorial sobre os temas de interesse a este trabalho. Para um dos editores, os critérios do SciELO poderiam ser balizadores para a primeira tomada de dados. Para o quarto periódico, foram feitas consultas aos relatórios de atividades que são publicados e apresentados em assembleia da associação científica ao qual se vincula.

Uma versão inicial de um texto no qual se traçavam algumas das considerações mais importantes que permanecem neste ensaio foi enviada para os editores de revistas que responderam às primeiras questões. Todos os editores enviaram-me sugestões, críticas, outras perguntas e necessários questionamentos quanto ao cenário que eu esbocei por escrito. A editoria de um quinto periódico, que não havia respondido às questões na ocasião do primeiro contato, fez comentários a partir da leitura daquela versão provisória.

Top-10 Acesso no SciELO-Revistas de Ciências Humanas

Fonte: elaboração propria

No decorrer deste ensaio, serão feitas alusões às contribuições dos editores das revistas, somando e contrapondo às minhas percepções sobre o tema da qualidade das revistas em educação no Brasil. Os nomes das revistas e de seus editores não serão explicitados no decorrer deste texto, por se considerar ainda incipientes as questões aqui levantadas, não cabendo comparações.

Este texto constrói-se acima de tudo como uma possibilidade de levantar pistas iniciais e proposições para uma agenda de discussões futuras.

Inicialmente, apresentam-se destaques do perfil e escopo editorial das revistas participantes da primeira sondagem. Em seguida, embora seja muito difícil separar os marcadores de busca utilizados, trabalha-se com a relação entre qualidade e impacto. Na seção seguinte, aspectos da internacionalização são postos em evidência. Por fim, trata-se de algumas dimensões da responsabilidade social, conceito ambíguo e contraditório. Encerra-se o texto com cinco questões para estimular o debate.

Destaques do Perfil e Escopo Editorial das Revistas Participantes

Revista Brasileira de Educação - RBE, publicada pela ANPEd - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação desde 1995, dedica-se à publicação de artigos acadêmico- científicos, fomentando e facilitando o intercâmbio acadêmico no âmbito nacional e internacional. É dirigida a professores e pesquisadores, assim como a estudantes de graduação e pós-graduação das áreas das ciências sociais e humanas.

Educação & Sociedade é uma publicação do Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES). É um dos mais importantes periódicos editados hoje na área da Educação no país. Publicada desde 1978. Planejada como instrumento de incentivo à pesquisa acadêmica e ao amplo debate sobre o ensino, nos seus diversos prismas. Um aspecto a ser salientado, no horizonte abrangido pela revista, é seu trabalho de abertura aos países da América Latina e Europa. A revista, indexada internacionalmente, recebe contribuições de autores de diversos países. Nesse intercêmbio cosmopolita, tem-se logrado trazer para o setor da educação e para outras áreas não apenas temas discutidos por especialistas com rigor e novidade, mas também um renovado interesse para as várias linhas de pesquisa acadêmica.

Cadernos de Pesquisa, periódico da Fundação Carlos Chagas, instituição considerada centro de excelência em pesquisa educacional, foi criado em 1971, tendo como principal objetivo divulgar a produção acadêmica direta ou indiretamente relacionada com a educação, publicando trabalhos inovadores, relativos a pesquisas, ensaios e outras modalidades de textos. A revista trata da educação de forma ampla, agregando à temática escolar estudos que abordam, de forma interdisciplinar, questões relacionadas a gênero, relações raciais, infância, juventude, escola, trabalho, família, políticas sociais. Sua prioridade é a publicação de pesquisas de caráter empírico, histórico e/ou documental, sobretudo as realizadas no país, abrindo espaço, também, às provenientes do exterior. Acolhe também ensaios relativos a contribuições teórico-metodológicas e torna acessíveis ao leitor brasileiro textos de autores internacionais reconhecidos, que possam referenciar estudos na área, traduzidos para o português, ou em língua espanhola.

Educação & Realidade tem como missão a divulgação da produção científica na área da educação e o incentivo ao debate acadêmico para a produção de novos conhecimentos. Visa, também, a ampliação das ferramentas analíticas de modo a expandir as fronteiras do pensamento e da prática no campo da educação. Nos seus quase 40 anos de existência, vem realizando essa missão por intermédio de uma política editorial consistente e centrada na qualidade dos textos oferecidos aos seus leitores. A apresentação de uma pluralidade de perspectivas teóricas é um dos pilares da política editorial da revista, como atesta a sua história de liderança na proposição de questões candentes na área da educação. Tem como objetivo servir de veículo não apenas para o conhecimento e as pesquisas já consolidadas, mas também para perspectivas inovadoras, tanto no que se refere à argumentação quanto à metodologia quanto os textos que se apresentam como alternativas aos modelos estabelecidos.

Por essas descrições, pode-se depreender os objetivos das revistas com relação ao tipo de texto privilegiado para publicação e aos recortes teóricos e metodológicos mais relevantes. Também, nota-se que são periódicos, em sua maioria, com longa história de inserção e reconhecimento na área de educação, marcando muitas vezes um pioneirismo.

A ênfase à abertura ao diálogo internacional é apontada por todas as descrições; há, porém, nuanças diferentes, mas que poderiam ser identificadas por uma demanda espontânea – marcada pela tradição histórica do periódico – ou induzida – por políticas editorias específicas de atração de textos internacionais ou publicação bilíngue.

Geralmente, nas orientações para os autores, encontram-se alguns cuidados mais explícitos relativos à qualidade, especialmente do texto que, após avaliação, será aprovado. Chamadas abertas para submissão de dossiês, incluindo autores internacionais, são características outras da proposta de ampliar a qualidade do periódico.

Como salienta uma das editoras das revistas, após a leitura do primeiro esboço do texto síntese por mim elaborador, seria necessário o estudo amplo da composição da revista –seus comitês editoriais, corpo de pareceristas, colaboradores nacionais e estrangeiros- como indicador de verificação da procura da internacionalidade pela revista. Um desses balizadores principais seria a presença de artigos escritos por autores estrangeiros sobre determinados temas que dizem respeito a situações nacionais, sem propriamente tratarem-se de educação comparada.

Qualidade, visibilidade e impacto

De acordo com matéria publicado na blog da SciELo, os esforços empreendidos pelos periódicos do Brasil em prol de maior presença internacional, como aqueles propostos pelo Programa SciELO, visam melhorar continuamente sua qualidade, visibilidade e impacto, assim como da ciência que reportam.

Por essas três vias, há o trabalho transversal de um dispositivo que é a internacionalização. Nas diferentes redes discursivas tal transversalidade vem engendrando relações de poder e, por suas distribuições efeitos variados, produzido outras discursividades que, por vezes, emergem como metanarrativas.

Portanto, há especificidades das relações entre qualidade, visibilidade e impacto que merecem outros destaques. A visibilidade tem uma tripla entrada: o acesso aberto; a agilidade na publicação dos artigos e a possibilidade de sua circulação mais rápida dentro das comunidades leitoras e a divulgação dos textos e autores em mídias digitais (comunicação da ciência). A visibilidade também é marcada em relação à responsabilidade social – e, indiretamente, associada ao impacto das pesquisas [metodologias e resultados] – para a produção científica e também na discussão e proposição, por exemplo, de políticas públicas. O impacto tem sido assumido, restritamente, como o número de acessos dos artigos, downloads e aos fatores ligados à citação do próprio texto, bem com na influência do autor dentro de um campo de conhecimento específico. Chama-se atenção para a constituição de um problema, cuja denúncia recai no uso desses critérios para financiamento público das revistas. Bem como, a criação de uma rede, espelhada em uma mercantilização de bens de consumo, e que acentua um dos sintomas mais criticados atualmente que é o produtivismo acadêmico.

Ou seja, há uma produção discursiva crítica sobre este modelo que relaciona qualidade à visibilidade e impacto cujos critérios de avaliação não se satisfizeram com o acesso aberto e público das publicações acadêmicas (o que, em hipótese, garante acessos em quantidades ‘livres’) e o impacto ‘medido’ pelo uso dos artigos em citações e visualizações. A criação de um tipo de indústria de fatores de impacto e índices h tem sido fortemente criticada por um conjunto de revistas que propõem reflexões sobre a necessidade de se construírem outros parâmetros para a avaliação da relevância, responsabilidade e inserção social das produções científico-acadêmicas.

Do ponto de vista do SciELO, a qualidade dos periódicos articula-se ao real impacto dos artigos publicados, o que se traduz na potencialidade de obter citações. O que se quis criar foram parâmetros para avaliar a qualidade dos periódicos em um contexto caracterizado como baixo desempenho internacional das revistas brasileiras e ao efeito colateral da avaliação Qualis-Capes que estimula a publicação de artigos em periódicos que, antecipadamente, se reconheceriam seus impactos.

O reconhecimento do valor da pesquisa pela simples capacidade de publicar-se em periódicos bem ranqueados e não pelo real impacto dos artigos parece ter estimulado o aumento do número de publicações brasileiras na linha do chamado produtivismo científico em detrimento da potencialidade dos artigos de obter citações. Certamente é determinante no desempenho por citações a relevância das pesquisas publicadas e a qualidade dos artigos, esta, em boa parte, determinada pelo rigor e cuidado na avaliação dos manuscritos. Outras causas chave e persistentes do baixo desempenho internacional dos periódicos do Brasil são: publicação de artigos em português, predomínio de 80% de autoria brasileira, baixa porcentagem de artigos de colaboração plurinacional entre os artigos com autoria estrangeira e a presença recente nos índices internacionais. O comportamento das citações, vale lembrar, varia segundo as áreas temáticas e índices utilizados (Blog SciELO)

O que se nota, também, é que os imperativos da qualidade das revistas gerou, contraditoriamente, um aumento do seu número e de textos que circulam em acesso aberto. O impacto, nessa conjuntura, foi também se caracterizando como resultado de um processo rigoroso (e, às vezes, moroso) de avaliação acadêmica dos textos.

Vários editores, após a leitura do primeiro esboço do texto síntese por mim elaborado, chamaram a atenção para a necessidade de se aprofundar a especificidade do campo da Educação, quando se menciona a relação entre qualidade e avaliação, pois as métricas são todas provenientes das áreas das ciências exatas, naturais e engenharia; mesmo outras formas de avaliação e de se pensarem as quantidades de artigos, coautoria etc. são elementos pensados originalmente em áreas “não humanas”. Assim, destacam que haveria com certeza um descompasso naquilo, por exemplo, que o SciELO estabelece como critério (que performatiza a revistas segundo uma acepção cientificista) e a “vocação” de cada revista no campo da Educação.

A qualidade dos periódicos tem sido também marcada, especialmente pelas discussões das entidades que compõem a ABEC, e na relação com o SciELO, como um questionamento à relação imediata entre qualidade, internacinoalização e simples publicação por um publisher internacional. Destaques são feitos à necessidade de que no Brasil venha se desenvolvam a infraestrutura e as capacidades nacionais de editoração e publicação científica; ou seja, a profissionalização da área bem como a defesa de que as agências de fomento adotem uma abordagem ampla de apoio à comunicação da pesquisa por meio dos periódicos do Brasil.

Essas questões, em certa medida, aproximam-se de um destaque que é feito em Editorial de uma das revistas, que articulam qualidade e visibilidade de conhecimentos de interesse mais regional. Também para a editoria desta revista, a qualidade está mutualmente associada com a divulgação da revista em portal aberto, de acesso livre. Há a introdução de vários mecanismos tecnológicos que permitem alcançar maior visibilidade para a revista e para autores que inclusive vários estão no portal do Scielo.

Internacionalização O extrato de Relatório de Atividades da Comissão Editorial de uma das revistas que fazem parte desta primeira sondagem, ilustra, de forma bem representativa, um movimento em direção à internacionalização comum a pelo menos três das revistas que fazem parte deste ensaio.

No que diz respeito às políticas de internacionalização assumidas pela RBE, gostaríamos de evidenciar a adoção, a partir do número 62 (Julho/2015), da publicação bilíngue (português e inglês), de parte dos artigos, na versão on-line da revista. Os artigos publicados em português/inglês foram decorrentes da adesão espontânea dos autores, que aceitaram o convite da CE, para apresentar uma tradução dos seus textos para a publicação. Um importante indicador relacionado à questão da internacionalização revela-se quando identificamos que, entre 2013 e 2015, 30% dos artigos publicados são oriundos de autores vinculados a instituições estrangeiras, com destaque para a América Latina e península Ibérica.

A tradução de artigos estrangeiros ou mesmo a sua publicação em língua original são também uma tendência. Alguns editores de demais revistas concordam com essa premissa e ação. No entanto, ela não é consensual. A internacinalização somente poderia ser analisada no conjunto total dos números de cada revista, buscando responder, por exemplo, se poderia ser significada como usar língua inglesa ou trazer pesquisas e análise de ponta para o Brasil e vice-versa.

Publicar ou traduzir os artigos para a língua inglesa não é um consenso e nem representa, em sua totalidade, a melhor característica da internacionalização. O mote da publicação em inglês é para atrair leitores desta língua e, também, atrair autores estrangeiros para que publiquem nas revistas brasileiras.

Algumas revistas associam a sua internacionalização com a responsabilidade social. Em uma dessas revistas, o relatório expressa “Com a área acadêmica e a elaboração de políticas públicas, buscando diálogo e expressão no cenário internacional. Esta tendência à publicação bilingue indica a visibilidade da revista nestes contextos de produção acadêmica, propiciando à revista uma posição de destaque na veiculação da produção da área de educação em contexto internacional.”

Para uma outra revista, em editorial consultado, articula a internacionalização com as métricas do impacto e do produtivismo, chamando atenção inclusive para o plágio. Considera como um problema a relação entre qualidade e impacto, via as tendências da internacionailzação.

Diante do atual contexto de mercantilização espetacular dos produtos simbólicos na forma dos artigos científicos, visibilidade se transforma na palavra de ordem. (...) Diante deste contexto, é interessante destacar o quanto a expressão fator de impacto desvela as características da sociedade cujas relações tendem a se tornar cada vez mais espetaculares. De fato, na atual sociedade do espetáculo, também a mercantilização dos produtos simbólicos, na forma dos artigos publicados, determina a maneira como tanto um determinado periódico se sobressai espetacularmente em relação a outro de menor Fator de Impacto.

Já para a uma terceira revista, dentro do grupo consultado, uma questão imperiosa diz respeito ao produtivismo acadêmico. Porém, considera que “a caracterização do produtivismo como expressão hodierna de uma mercantilização da ciência pode incorrer no risco de se desconsiderar a história da ciência como elemento constitutivo da história da sociedade capitalista. Isso seria importante para dar mais substância aos questionamentos que, paradoxalmente, são postos em circulação em artigos publicados e pontuados em revistas qualificadas”.

No mesmo artigo, indica-se que no afã de objetar, por vezes sacam-se argumentos completamente infundados, como aqueles que equiparam as pressões para se publicar com a imprescindibilidade da publicação dos resultados de pesquisa. Ou seja, se por um lado há as exigências de publicar em veículo de maior impacto e com circulação inernacional, por exemplo, por outro lado diante das demandas relacionadas à dinâmica da produção e socialização dos conhecimentos científicos é imprescindível sua divulgação [ou, em outras palavras, seu impacto desejável].

A representação cíclica da fabricação da ciência é apropriada por outra razão importante: mostra que a publicação não é o ponto final de uma atividade científica, como às vezes se descreve. Ela realimenta o ciclo, com novos conhecimentos e proposições. Portanto, deixar de publicar, por qualquer razão, é romper um elo do processo e, consequentemente, interromper um avanço da área de pesquisa em que o ciclo se insere. (Meneghini, 2012)

Essa é uma linha, mesmo que às avessas, portanto, de associação entre a internacionalização e a responsabilidade social.

O editor de um dos periódicos informa que, em relação à internacionalização, também é uma coisa difícil de tratar. Pensando em um quadro geral da área, haveria que se considerar que isto não poderia ser tomado como modelo a ser implantado por todas as revistas.

Responsabilidade social

De acordo com um artigo publicado em uma das revistas consultadas, para o SciELO, “o processo de produção científica implica a necessidade da publicação". Rogerio Meneghini (2012), coordenador científico do Programa SciELO (Scientific Electronic Library Online), indica um ciclo de produção da ciência envolvendo cientistas e seus projetos, a infraestrutura e o desenvolvimento da pesquisa, os resultados e sua discussão com pares (de modo informal ou em congressos), culminando em publicações internacionais e nacionais.

Talvez, essa discussão sobre a responsabilidade social seja a geradora de posicionamentos mais variados entre as revistas, haja vista a sua relação com as histórias, escopo e linhas editorias diversas. Por exemplo, para um dos periódicos, há uma questão de fundo relativa à democratização da ciência, que passa, historicamente, pelas relações com a economia, os contextos políticos e o mercado.

Pelas premissas do SciELO, a função da publicação em revistas especializadas estaria primordialmente voltada para a problematização e a produção do conhecimento científico. Daí a existência dos periódicos, com seus artigos que são mais ou menos lidos e citados.

Há uma revista, porém, que destacam que a contribuição primordial dos artigos científicos reverte diretamente na formação de pesquisadores e no desenvolvimento das pesquisas, e não na sua divulgação ao público em geral. Para o editor dessa mesma revista, a relação entre qualidade e responsabilidade social das revistas "também se faz pela qualidade do que publica. E o que tem sido encaminhado muitas vezes mostra uma frouxidão na ponta onde é produzido. Ou seja, tratar apenas das revistas e dos problemas envolvidos nessa dinâmica terrível de interesses econômicos das editoras comerciais é apenas parte da questão. Há problemas também no que tem sido pesquisado nos Programas de Pós-Graduação, assim como nos jogos de poder existentes na área, que entre outras coisas interferem ou tentam interferir nos processos decisórios de publicação".

Para outras duas revistas, porém, é preciso considerar que há várias temáticas que se destinariam a interesse aos pesquisadores basileiros ou de realidades próximas, mas que, por conta de suas idiossincrasias, não só interessam a tais periódicos, como também proporcionam a internacionalização de trocas de diferentes metodologias sobre os mesmos objetos de pesquisa, o que proporciona avanços significativos para a própria área de educação.

Ou seja, a responsabilidade social do periódico em fazer avançar metodologias de pesquisa e novas abordagens tem na internacinalização um de seus motes.

Questões para um cenário de possíveis outros caminhos

1. Como diferenciar os critérios de qualidade da publicação científica priorizando as histórias singulares dos periódicos?
2. Como fazer a internacionalização operar afirmativamente para a produção de conhecimentos de interesse regional, local e nacional?
3. Quais seriam as características primordiais da responsabilidade social dos periódicos científicos brasileiros?
4. Em que medida o ciclo de qualidade dos periódicos não pode ser sobreposto às políticas de seu financiamento público?
5. Como não reduzir a internacionalização à divulgação de produções em inglês? {questão incluída por editores de um dos periódicos que participou desta primeira sondagem}


Bibliografía

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Meneghini, R. (2012). Publicação de periódicos nacionais de ciência em países emergentes. Educ. Rev., Belo Horizonte, vol. 28, núm. 2, jun. Disponível em . Acesso em: 02 mar. 2014.
Packer, A.L.; Cop, N.; Luccisano, A.; Ramalho, A; Spinak, E. (org.) (2014). SciELO-15 Anos de Acesso Aberto [livro eletrônico]: um estudo analítico sobre Acesso Aberto e comunicação científica. UNESCO, Paris.
Revista Brasileira de Educação. (2016) Relatório Comissão Editorial 2013-2016. ANPEd, Rio de Janeiro, 12 p.
Revista Educação & Sociedade (2015). Editorial. A Internacionalização Espetacular dos Periódicos da Educação. Educ. Soc., Campinas, v. 36, núm. 130, pp. 17-20, jan.-mar.
SciELO em Perspectiva. A internacionalização dos periódicos foi tema central da IV Reunião Anual do SciELO. http://blog.scielo.org/blog/2014/12/16/a-internacionalizacao-dos-periodicos-foi-tema-central-da-iv-reuniao-anual-do-scielo/#.WPDkCPnyuUk

 

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